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IEA alerta: China fabrica 80% das baterias do mundo — e isso é um risco estratégico real para o Brasil

Redação Brasil BESS

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8 min de leitura
IEA alerta: China fabrica 80% das baterias do mundo — e isso é um risco estratégico real para o Brasil

Em março de 2026, a Agência Internacional de Energia (IEA) publicou uma análise que deveria estar na mesa de qualquer desenvolvedor de projetos BESS, investidor ou formulador de política energética no Brasil. O título é direto: "Global battery markets are growing strongly — and so are the supply risks". A conclusão, mais ainda.

A China fabrica hoje mais de 80% de todas as baterias do planeta. Não estamos falando de uma participação histórica que está sendo diluída. Estamos falando de uma concentração que se aprofundou nos últimos anos — e que, com os recentes controles de exportação de tecnologia LFP impostos por Pequim, tem tudo para se tornar ainda mais estrutural.

Para o Brasil, às vésperas do primeiro leilão exclusivo de sistemas de armazenamento (o LRCAP 2026), compreender essa dependência não é um exercício acadêmico. É uma questão de viabilidade de projeto, de segurança energética e de estratégia industrial.


O crescimento vertiginoso do BESS — e quem está colhendo os frutos

Os números do relatório da IEA são impressionantes. A capacidade global de armazenamento de energia em baterias cresceu 20 vezes em cinco anos. Em 2025, os sistemas BESS responderam por mais de 15% de todo o deployment de baterias de íon-lítio no mundo — uma parcela que era marginal há apenas uma década.

Esse crescimento foi viabilizado por três fatores simultâneos: a queda estrutural nos preços das células LFP, o aumento da penetração de renováveis intermitentes nas matrizes elétricas globais, e os prazos relativamente curtos de desenvolvimento de projetos de armazenamento comparados a usinas termelétricas ou hidrelétricas.

O preço das células LFP caiu mais de 15% em 2025 e acumula uma redução de mais de 80% na última década. Neste ponto, porém, começa o paradoxo: o mesmo agente que tornou o BESS acessível ao mundo é o que concentra seus riscos. Quase toda essa queda de custo foi impulsionada pela escala industrial chinesa. E quase toda essa escala está, por definição, fora do alcance imediato de países como o Brasil.


A anatomia da dependência: o que a China controla, exatamente

A dominância chinesa no mercado de baterias não é um fenômeno de uma única variável. Ela opera em múltiplas camadas da cadeia produtiva, e cada uma delas representa um ponto de vulnerabilidade distinto.

Na mineração e refino: A China é o principal refinador em 19 dos 20 minerais estratégicos para a transição energética, com participação média de 70% no processamento. Para o grafite de grau bateria, controla 80% da produção global. Para o sulfato de manganês de grau bateria — insumo essencial tanto para LFP quanto para as emergentes químicas de sódio-íon — detém 95% da capacidade mundial.

Na fabricação de cátodos LFP: A China produz 98% do material catódico LFP e 94% de toda a capacidade de células LFP do planeta. A LFP é hoje a química dominante em sistemas de armazenamento estacionário, representando mais de 90% dos sistemas BESS instalados globalmente em 2025. Isso não é diversificação de risco — é concentração de risco em um único ponto de falha.

No ácido fosfórico purificado (PPA): O PPA é um insumo crítico para a fabricação de cátodos LFP. A China controla 75% da produção global. Sem PPA chinês, não há LFP. Sem LFP, não há BESS na escala e custo que o mercado hoje pratica.

Na vantagem de custo: Em 2025, o custo de produção de células de bateria na China era 30% menor que nos EUA e 35% menor que na Europa. Essa diferença não é apenas tecnológica — ela reflete décadas de investimento em escala, integração vertical e subsídios industriais que países ocidentais estão apenas começando a tentar replicar.


Os novos controles de exportação: quando a dependência vira vulnerabilidade

O que tornava a dependência do mundo em relação à China relativamente administrável até recentemente era o fato de que Pequim tinha interesse em exportar — em vender baterias para o mundo a preços competitivos. Esse interesse permanece, mas está sendo reequilibrado por considerações estratégicas.

Em julho de 2025, a China adicionou à sua lista oficial de controle de exportações as tecnologias de fabricação de cátodos LFP e LMFP (Litio Manganês Ferro Fosfato), além de processos avançados de extração e processamento de lítio. A medida exige licença governamental para qualquer transferência dessas tecnologias ao exterior — seja via comércio, investimento ou cooperação técnica.

A intenção declarada é proteger as "vantagens competitivas" da China em setores de inovação estratégica. A consequência prática é que países que tentam construir indústrias domésticas de baterias — como os EUA, a Alemanha, ou eventualmente o Brasil — encontrarão enormes dificuldades para licenciar a tecnologia mais avançada de fabricação LFP, mesmo que tenham capital e minerais disponíveis.

O próprio relatório da IEA alerta que, se os controles de exportação forem estendidos, "isso poderia restringir severamente a capacidade do restante do mundo de produzir baterias, com consequências estratégicas e econômicas potencialmente significativas."


O cenário de choque: o que acontece se a cadeia for interrompida

Para dimensionar a magnitude do risco, a IEA realizou um exercício de estresse aplicando o modelo "N-1" — isto é, simulando a interrupção do maior fornecedor individual de cada mineral. Os resultados são reveladores.

Para o grafite de grau bateria (essencial para os ânodos das células LFP), os suprimentos restantes cobririam apenas 35–40% da demanda projetada para 2035 em um cenário de interrupção chinesa. Para o sulfato de manganês, 55%. Para lítio e cobalto, 65% — ainda insuficiente.

Em termos de preço, um choque de fornecimento que provocasse uma alta de 5 vezes no preço do lítio elevaria o custo médio global de packs de bateria em 20%. Uma alta de 10 vezes — improvável, mas não impossível em um cenário de crise — resultaria em encarecimento de 40 a 50% nos custos de baterias globalmente, destruindo a competitividade que tornou o BESS viável.

Esses não são cenários distantes. Em 2010, a China reduziu suas exportações de terras raras e os preços subiram 10 vezes em meses. O histórico existe.


O que o Brasil tem a ver com tudo isso

O Brasil não é um ator central nessa geopolítica — ainda. Mas está entrando em um mercado de armazenamento de energia no momento mais delicado da cadeia de suprimentos global de baterias desde que o BESS se tornou tecnologia viável.

O LRCAP 2026 prevê a contratação de 2 GW (cerca de 8 GWh) de armazenamento. Se bem-sucedido, isso representa um pipeline de projetos que vai precisar de equipamentos — PCS, módulos de bateria, sistemas de gerenciamento — cujo fornecimento está majoritariamente concentrado na China. A janela de compra coincide precisamente com a fase de eliminação dos subsídios de exportação chineses e com o endurecimento das regras de transferência tecnológica.

Ao mesmo tempo, o Brasil tem algo que poucos países têm: lítio. O país possui as maiores reservas de lítio da América Latina, concentradas principalmente em Minas Gerais (Araçuaí, Itinga, Jequitinhonha). A CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração) já é líder mundial em nióbio — um metal que está sendo estudado como potencial substituto parcial em composições catódicas avançadas. A questão é: o Brasil tem estrutura industrial para transformar essa riqueza mineral em células de bateria competitivas?

A resposta honesta é: ainda não. Mas está mais perto do que parece.


As apostas do Brasil na diversificação

WEG e a fábrica de sistemas BESS: A WEG anunciou R$ 280 milhões para uma fábrica de integração de sistemas BESS em Itajaí (SC), com capacidade de até 2 GWh/ano. Num primeiro momento, a fábrica dependerá de células importadas — majoritariamente chinesas. Mas o passo de integrar localmente os sistemas (PCS, BMS, EMS, estrutura) reduz parte da vulnerabilidade e cria conhecimento técnico doméstico.

O papel do BNDES na cadeia mineral: O BNDES tem discutido internamente programas de apoio à mineração e processamento de minerais críticos. O contexto geopolítico global — com os EUA criando o Inflation Reduction Act e a Europa instituindo o Critical Raw Materials Act — cria uma janela de oportunidade para o Brasil se posicionar como fornecedor alternativo de minerais para baterias, especialmente lítio e nióbio.

Parcerias com Coreia e Japão: LG Energy Solution e Samsung SDI, que estão investindo em capacidade de produção fora da China (principalmente nos EUA), poderiam ser parceiras estratégicas para projetos de transferência tecnológica no Brasil — especialmente se o país oferecer acesso preferencial a lítio como contrapartida.


A lição da história do petróleo

A IEA foi criada em 1974 — um ano após o choque do petróleo — exatamente para lidar com dependências concentradas de fornecimento energético. Cinquenta anos depois, o mundo está replicando a mesma estrutura de risco com as baterias: um insumo estratégico, concentrado em um único grande fornecedor, no centro da transição energética global.

A diferença é que, com o petróleo, o mundo tinha décadas para ajustar. Com as baterias, o tempo é muito mais comprimido: a transição energética precisa acontecer em 20–30 anos, e o BESS está no centro dela.

Para o Brasil, a mensagem é clara: aproveitar o momentum do LRCAP 2026 é essencial, mas construir uma cadeia de suprimentos resiliente — com mineração, processamento e eventualmente manufatura de células — não é luxo estratégico. É condição para que o mercado brasileiro de armazenamento de energia seja sustentável no longo prazo.

O risco não está no BESS em si. Está em construir uma indústria inteira sobre um único fornecedor que está, cada vez mais, priorizando seus próprios interesses estratégicos.


Fontes: IEA Global Battery Markets Report (Mar 2026), IEA Global Critical Minerals Outlook 2025, Battery Technology Online (Mar 2026), CNN Brasil, Canal Solar.

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